quarta-feira, 3 de maio de 2017

O que queremos ver? - Identidade vertical, horizontal e escolhas em 'TERRADOIS'

por Carmem Toledo

Já falei a respeito do programa televisivo “TERRADOIS”, produzido pela TV Cultura. 
Depois de assistir ao episódio de ontem - “Aquele que não quer ver” -, resolvi escrever novamente, motivada pelo tema debatido. Hoje, manipula-se o que sempre concebemos como natural, imprevisível e inelegível: embriões são modificados, fazendo com que nossas escolhas sejam, ao mesmo tempo, expressões de liberdade e de imposição. Esta seria uma das realidades de “TERRADOIS”, ou da pós-modernidade. No texto abaixo, vou um pouco mais além e tento analisar outras questões que me vieram à mente enquanto assistia ao programa.

Falar sobre a pós-modernidade implica a abordagem de temas éticos – matérias que se fazem sempre presentes na investigação de tudo que diz respeito ao ser humano inserido em determinada realidade social. A partir de valores e ideais relacionados à conduta, é construída a base teórica que tenta orientar a boa convivência em sociedade. Esta é a chamada “ética”, a reflexão sobre os princípios que suscitam ou norteiam o comportamento humano. Trata-se de um assunto muito vasto, presente em filosofia, história, antropologia e outras áreas de estudos. Os sofistas – apesar de não possuírem um sistema ético - intencionavam transmitir ensinamentos sobre a melhor maneira de lidar com assuntos materiais, como a administração de negócios públicos. Sócrates foi o primeiro a instituir uma máxima positiva de conduta segundo a qual a virtude é o conhecimento do bem. Aristóteles colocava a virtude (areté) como a base da felicidade individual e coletiva (eudaimonia). Desde os antigos até nossos dias, a ética se faz presente, traduzindo os princípios universais das opiniões morais sobre a prática social – algo estreitamente ligado à cultura, a visões de mundo produzidas pela percepção individual e pela educação recebida.

A dramaturgia do programa de ontem (escrita por Edu Salemi) resumiu perfeitamente essa via de mão dupla, na minha opinião. Os anseios do pai (interpretado por Marco Antônio Pâmio) eram de igualdade em relação à filha (representada por Isabella Vergal). A partir de uma discussão sobre a decisão tomada junto à esposa (vivida por Martha Nowill), de alterar o embrião para que a criança nascesse cega como os pais, produziu-se um conflito: Aquele bebê cresceu e então, ouvia toda a conversa, tornando-se ciente de uma escolha da qual não participou e que traria consequências para toda sua vida. É claro que os pais sempre querem o melhor para seus filhos. Na ficção encenada no programa, não era diferente.

Assim que comecei a assistir à cena, lembrei-me do livro de Andrew Solomon, “Longe da Árvore”. O próprio título é bastante expressivo, fazendo referência à famosa máxima: “O fruto nunca cai longe da árvore”. Esta frase é alicerçada sobre algo chamado “identidade vertical” - quando a criança se assemelha a seus progenitores. No entanto, há frutos que caem “longe da árvore” - quando nasce um bebê com alguma deficiência, revela-se um prodígio, ou mesmo nos casos de homossexualidade e transexualidade. Geralmente, são condições estranhas às famílias, que tendem a fazer projetos que reforçam a verticalidade e rechaçam a diferença, quando esperam um bebê. E é justamente esta diferença que reúne esses “frutos isolados”, produzindo uma outra identidade: a horizontal.

Na cena de “TERRADOIS”, o comportamento do pai, segundo minha interpretação, conseguiu unir a verticalidade e a horizontalidade das relações humanas. Ele e a esposa eram cegos e o desejo de ter um filho igual – que “caísse perto da árvore” - era grande. Graças aos avanços científicos, a escolha sobre o embrião tornou-se uma realidade. Nascendo cega, a criança seria um “espelho” dos pais, reafirmando a identidade vertical. Ao mesmo tempo, reforçaria a adequação da família na comunidade cega – algo que também se fez presente no relacionamento afetivo da filha, que também fora manipulado pelo pai -, fortalecendo a identidade horizontal.

Algo bastante parecido acontece nos casos de surdez. Oliver Sacks fez uma excelente investigação sobre a comunidade surda e seus estudos, somados à sua experiência, geraram o livro “Vendo Vozes”. Os surdos têm uma língua própria - de sinais. É interessante notar que a língua, além de alterar o desenvolvimento cerebral e ser a principal via de expressão do “eu”, é algo social, o que faz dela um dos principais elementos agrupadores, formadores de comunidades e, portanto, de culturas. Sacks escreve, com propriedade:

“A língua de sinais é para os surdos uma adaptação única a um outro mundo sensorial; mas é também, e igualmente, uma corporificação da identidade pessoal e cultural dessas pessoas. Pois na língua de um povo, observa Herder, 'reside toda a sua esfera de pensamento, sua tradição, história, religião e base da vida, todo o seu coração e sua alma.' Isso vale especialmente para a língua de sinais, porque ela é a voz – não só biológica mas cultural, e impossível de silenciar – dos surdos.” (SACKS, Vendo Vozes, trad. de Laura Teixeira Motta, Companhia das Letras, p. 105).

Existe um debate ético baseado nisso, sobre o implante coclear. Solomon afirma:

“Ele foi saudado pelos progenitores como uma cura milagrosa para um defeito terrível e foi lamentado pela comunidade surda como se fosse um ataque genocida a uma comunidade vibrante.”

Prosseguindo, o autor entra na questão abordada pelo programa:

“Desde então, ambos os lados moderaram a retórica, mas a questão é complicada pelo fato de que os implantes cocleares se mostram mais eficazes quando são feitos precocemente – em bebês, de preferência – e, assim, a decisão é muitas vezes tomada pelos pais antes que a criança possa ter ou expressar uma opinião informada”. (SOLOMON, “Longe da Árvore”, trad. de Donaldson M. Garschagen, Luiz A. De Araújo e Pedro Maia Soares, Companhia das Letras, pp. 13-14).

Como se vê, trata-se de uma questão muito mais cultural do que patológica e, portanto, ética. Na minha opinião, tanto na ficção encenada em “TERRADOIS”, como na realidade estudada por Andrew Solomon e Oliver Sacks, o que está em jogo são a prática em comunidade e nossa liberdade de escolha como algo que implica ultrapassar e, ao mesmo tempo, impor limites. Um dos motes do programa (dito pelo psicanalista Jorge Forbes) é “Podemos mais do que queremos”. De fato, ainda precisamos conciliar nosso “poder” com nossos desejos, que ainda estão atrelados a valores que seguem em constante modificação. Aí está a ética que criamos e à qual nos submetemos – mas de que nem sempre temos plena consciência. Cada vez mais, a responsabilidade se mostra como o cerne da moral contemporânea. Quanto mais podemos, mais nos tornamos responsáveis. A vida tem apresentado desdobramentos, possibilidades que parecem infinitas, mas uma coisa não muda: sua preciosidade. Ela ainda pulsa de maneira animal, lembrando-nos que somos mortais, habitantes de um mesmo planeta e, portanto, responsáveis uns pelos outros – e não há “mundo virtual” que possa negar isso (ao menos, por enquanto).

Carmem Toledo

Seguem os vídeos correspondentes ao programa de ontem, que inspirou este artigo:








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