quarta-feira, 28 de março de 2018

Sanidade e loucura: Linguagem e liberdade no teatro e em Foucault


Por Carmem Toledo 

O teatro nos embriaga com o vinho de Baco para que nossa lucidez não derreta sob as luzes que tornam a realidade mais nítida. É esta arte que nos mostra que a sanidade reside em nossos mais extraordinários pensamentos. Bem disse Machado de Assis que o teatro é "o grande fiat de todos os tempos", mostrando-se consciente de seu poder para transformar a sociedade e incendiar as "obras da noite e da sombra"*.

Não é à toa que a leitura de "Ofélia Emparedada", de Erica Montanheiro, tenha ocorrido justo no Dia Mundial do Teatro. O evento se deu no Espaço Cia. da Revista, em São Paulo e contou com os talentos de Mariah Guedes, Lucas Lentini, Eric Lenate, Bruno Perillo e direção de Kleber Montanheiro. Que texto forte e cheio de significado! Sua metalinguagem tem o dom de materializar nossos mais íntimos questionamentos sobre uma normose que se pretende normalidade. As palavras lavam a alma, libertam - ou nos impulsionam rumo à liberdade. Espero que seja montado em breve! Precisamos disso!

Digo o mesmo sobre a leitura intitulada "Balada dos Enclausurados", realizada no último sábado, na Casa do Saber. O evento reuniu dois textos: "Inventário", também de Erica Montanheiro, e "Testemunho Líquido", de Eric Lenate. Ambos tratam da "loucura", ou melhor, da clausura de dois artistas: Camille Claudel e Vaslav Nijinski. A liquidez de suas palavras traduzem o quanto a ausência de sentido denuncia o próprio sentido da existência e das relações humanas.
Estes textos evocaram em mim a lembrança de "História da Loucura", de Michel Foucault, na medida em que abordam a exclusão mediante a reclusão dos corpos que causam repulsa à sociedade. Na trajetória descrita pelo filósofo e teórico social, a concepção de doença mental e os mecanismos de "eliminação" dos indivíduos vistos como loucos são construídos historicamente, constituindo-se, portanto, a experiência da loucura como invenção humana, um conjunto de códigos que impõem o silêncio e relegam ao campo da desrazão para, então, excluir aqueles que teriam sua voz calada e, por consequência, o direito de escrever sua própria história negada.
Na Idade Média, os loucos passaram a ocupar um lugar na sociedade como seres que diziam a "verdade" por meio de extravagâncias. Assim, pode-se afirmar que eles estavam, de certa forma, incluídos, ainda que lhes fosse atribuída uma condição específica. O isolamento propriamente dito teria se dado a partir da Renascença, quando a figura do louco é desclassificada e dissolvida entre tantos outros discriminados, como bruxos e vagabundos. Essa desclassificação se dera como resultado de um embate desleal com a razão - ápice do estatuto das "verdades ocidentais". Então, a loucura de tornava uma linguagem desqualificada, falsa, inepta a dizer a verdade.
No século XX, a loucura seria compreendida como uma linguagem cujo fundamento - ou melhor, decifração - está em seu próprio delírio convertido em palavras, ou seja, uma linguagem interdita, que diz sem comunicar, que não produz obras.

Camille Claudel e Vaslav Nijinski foram artistas reclusos por serem considerados loucos. No imaginário social, arte e loucura são domínios ligados pela experiência trágica. O que os reúne é o caos, a ininteligibilidade, o que está fora da humanidade. Porém, enquanto a sociedade pode ir até esse campo exterior para estudá-lo, colhendo informações desse caos para sua análise e inspiração, o louco está condenado a essa ausência de história, de saber - e permanece ali, desprotegido, solitário. Ele está preso do lado de fora - produzindo suas obras.

Neste ponto, vem-me à mente outra obra de Foucault: "As palavras e as coisas". Se "História da Loucura" coloca tal condição como uma construção humana, este outro livro põe o homem como invenção recente e raiz do pensamento moderno, tratando do espaço onde a multiplicidade dos seres - loucos e sãos - se encontra. Tal lugar de reunião é definido como o a priori histórico onde são formadas racionalidades e ciências são constituídas: uma arqueologia. A diversidade de linguagens é estabelecida na contingência histórica e descrita como atividade incessante do povo - e não como instrumento que vem do alto para regular a realidade e universalidade das relações:

“A linguagem está ligada não mais ao conhecimento das coisas, mas à liberdade dos homens”**

As palavras libertam, mesmo na loucura. As palavras da dramaturgia libertam, mesmo em nossa insanidade social e política.

Dioniso nos chama. Ele quer que despertemos - e nos libertemos.

Evoé!

Carmem Toledo
http://culturofagicamente.blogspot.com
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Leiam também a postagem sobre a peça "Histeria", de Terry Johnson (que também tem a ver com "normalidade", loucura e teve Erica Montanheiro no elenco): http://culturofagicamente.blogspot.com.br/2017/03/recomendo-peca-histeria.html



* MACHADO DE ASSIS apud Magaldi, "Panorama do Teatro Brasileiro", Global Editora, 2004, p. 134.
** FOUCAULT, "As palavras e as coisas". Trad. Salma Tannus Muchail, Martins Fontes, 2002, p. 402.

Outras referências:

FOUCAULT, "História da Loucura na Idade Clássica". Trad. José Teixeira Coelho Neto, Perspectiva, 2005.
PRADO, Tomás Mendonça da Silva, "Foucault, a História e a Linguagem em 'As Palavras e as Coisas'" in Princípios - Revista de Filosofia (UFRN) [online]. 2014, vol. 21, n. 35, pp. 37-62. ISSN 1983-2109. https://periodicos.ufrn.br/principios/article/view/6021/4780
PROVIDELLO, Guilherme Gonzaga Duarte, "A loucura em Foucault: Arte e loucura, loucura e desrazão" in Hist. ciênc. saúde-Manguinhos [online]. 2013, vol.20, n.4, pp.1515-1529. ISSN 0104-5970. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013000500005 (acessado via http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v20n4/0104-5970-hcsm-20-04-01515.pdf)



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