quinta-feira, 26 de agosto de 2021

"Enquanto durmo": Uma reflexão sobre arte e a eterna busca de si

É bastante conhecida a imagem do palhaço que, apesar de fazer rir, afoga-se em sua própria melancolia. Longe de ser um mero "clichê", esta é uma realidade um tanto complexa em que todos nós, independente de nossas profissões, estamos inseridos, mas nos recusamos a analisar.

Vivemos para fazer rir, emocionar o outro - seja este um familiar, cônjuge, amigo, colega, chefe... porque assim se espera. Temos que mostrar que estamos bem o tempo todo. É a tal história de "morrer em pé". Por que fazemos isso? Porque pessoas felizes convencem melhor. 
Mas e os artistas? Todos olham para eles, pedindo ajuda nessa busca interminável pela "felicidade", pelos risos, pela emoção... É como se eles fossem sempre os terapeutas de que tanto precisamos, sempre a postos para nos entregar - em uma bela embalagem, espera-se - a catarse, a tal purificação milagrosa e instantânea. O mesmo se passa com as redes sociais e os "memes", afinal, não temos tempo a perder: "Time is money". Ah! E catarse boa mesmo, só com a tragédia dos outros (óbvio).
O artista se esforça, busca palavras, gestos e maneiras de se expressar lá no fundo de sua alma, para nos presentear com algo belo, que nos faça rir, chorar ou franzir o cenho. Muitas vezes, nesse processo, ele faz uma espécie de "alquimia" com suas próprias lágrimas, transformando-as em um mar lindo, calmo, da maneira que esperamos. Mas, depois do produto pronto, poucos de nós olhamos para o caminho feito pelo artista. Como se deu a construção de sua obra - seja ela uma canção, uma personagem, uma pintura ou um texto?
Assim como nós não nascemos prontos, assim acontece com as obras de arte: elas não se fazem sozinhas, tampouco de uma hora para outra. Muitas vezes, para que pudéssemos ter alguns momentos de prazer, um artista criou algo bem próximo ao solo, banhado em prantos, transformando a obra, em seguida, em algo mais "pra cima", perto do céu. Tudo isso, para que nós, mais uma vez, "morramos em pé", ou seja, para que nos sintamos vencedores nos piores momentos.
Darei um exemplo a seguir, com a letra de uma canção muito conhecida, que costuma ser cantada ao som de um violão, por vozes animadas. Copiei e colei apenas a letra, para que vocês a leiam. Peço que, mesmo reconhecendo-a, não a cantarolem. Apenas leiam a letra em voz alta e reparem na melancolia presente em todo seu conteúdo.
Zélia Duncan a escreveu pensando em um momento de tristeza, mas seu parceiro musical, Christiaan Oyens, resolveu criar uma melodia que não acrescentasse ainda mais peso a seu significado. Poderiam ser citados muitos outros exemplos na música brasileira, mas optei por esta, pois acredito que as palavras captem bem o sentido do que quero dizer (além disso, eu, filósofa que sou, percebi uma certa dose de existencialismo).
Pensem bem em quantas vezes recorremos a alguém para que seja nosso "salvador", enchendo-o de perguntas cujas respostas não nos satisfazem. É uma eterna busca por nós mesmos em um campo desconhecido onde nunca nos encontramos e com isso, não nos acalmamos. E sabemos disso, mas não queremos assumir. Esperamos que nossas questões se resolvam sozinhas, como se um milagre pudesse "lavar" as nossas inquietações. E esperamos a tal chuva cair... E lançamos mais perguntas ao outro, esperando que ele nos salve enquanto nos afaga durante o sono de nossa razão.
Reparem nas coisas de que a arte é capaz! Reparem nas coisas que teimamos em não perceber! É que "de longe parece mais fácil; frágil é se aproximar".

Carmem Toledo




"Enquanto durmo"
Zélia Duncan/Christiaan Oyens

"Muitas perguntas
Que afundas de respostas
Não afastam minhas dúvidas
Me afogo longe de mim
Não me salvo
Porque não me acho
Não me acalmo
Porque não me vejo
Percebo até
Mas desaconselho...

Espero a chuva cair
Na minha casa, no meu rosto
Nas minhas costas largas
Espero a chuva cair
Nas minhas costas largas
Que afagas enquanto durmo
Enquanto durmo
Enquanto durmo

De longe parece mais fácil
Frágil é se aproximar
Mas eu chego, eu cobro
Eu dobro teus conselhos
Não me salvo
Porque não me acho
Não me acalmo
Porque não me vejo
Percebo até
Mas desaconselho

Espero a chuva cair
Na minha casa, no meu rosto
Nas minhas costas largas
Espero a chuva cair
Nas minhas costas largas
Que afagas enquanto durmo
Enquanto durmo
Enquanto durmo"




Autoria:

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