quarta-feira, 30 de junho de 2021

Tributo à cantora Dalida: "Pour ne pas vivre seul"

    "Pour ne pas vivre seul" é uma das mais belas canções interpretadas por Dalida. Composta em 1972 por Sébastien Balasko e Daniel Fauré, a obra possui melodia e letra verdadeiramente tocantes. Nesta postagem, faço uma breve reflexão sobre a música e sua ideia central - a solidão - para, em seguida, apresentar ao público minha declamação da tradução, também realizada por mim.
    Desta vez, não dedico esta publicação apenas à eterna Dalida, mas também a todos que, para não viverem sós, amam como podem, não importando a forma. Sigamos sós, mas em companhia uns dos outros.

    Embora amada pelo público, pelos amigos e possuindo a companhia constante de seu irmão e produtor, Orlando (Bruno Gigliotti), bem como de Rosi, sua prima e confidente, Dalida sofria de uma terrível solidão que a conduzia ao excesso de trabalho como refúgio ou consolo. A artista realmente amava sua função e acreditava na missão que seu dom representava junto ao público, porém, ela se entregava aos compromissos profissionais para além da responsabilidade e dedicação típicas de uma cantora zelosa. Seria como se ela se voltasse para algo que lhe proporcionava prazer - colocar em prática seu dom - para tentar lidar com outros aspectos de sua vida pessoal que lhe causavam dor. 
    Acho perigoso chamar esta atitude de "fuga", pois não se trata disso, uma vez que Dalida buscava o autoconhecimento através de terapia, leituras de obras de Filosofia e Psicologia, além do cultivo da espiritualidade. Particularmente, interpreto todas essas reflexões geradas por tais recursos como provas de empenho em enfrentar as situações. Penso que sejam mecanismos de investigação interior. 
    Entretanto, a transformação de um instrumento de amparo em um plano de evasão da realidade pode ser uma linha muito tênue e perigosa - para quem vive este processo e também para quem assiste a tudo e interpreta segundo as aparências. 
    A letra da canção em questão, na minha opinião, traduz essa sutileza. Para não vivermos sós, esperamos a primavera porque este é um recurso de amparo ou para fugirmos das sensações proporcionadas pelas outras estações do ano? Creio que esta pergunta possa ser repetida em todas as frases da música, mas apenas alerto para que se tenha o cuidado de não pender totalmente para uma interpretação, pois, em alguns momentos, tal leitura prejudicaria o real sentido do texto, já que é nítido que em determinadas passagens os autores pretenderam mostrar uma realidade negligenciada (ou melhor, negada) por uma sociedade padronizadora, que impõe visões estereotipadas sobre o que é viver "em companhia", o que é "ter amigos" e o que é "família". 
    Penso que esta canção seja um hino às formas de amar, à diversidade e, acima de tudo, à solidão, que é nossa maior companheira, do nascimento à morte.
    A seguir, deixo aos leitores minha tradução e o vídeo onde declamo esta bela e forte letra. 

Carmem Toledo






Para não viver só
(Pour ne pas vivre seul, Sébastien Balasko/Daniel Fauré, 1972)
Tradução: Carmem Toledo

Para não vivermos sós
Vivemos com um cão
Vivemos com rosas
Ou com uma cruz
Para não vivermos sós
Nós nos iludimos, gostamos de uma lembrança,
Uma sombra, não importa o quê
Para não vivermos sós
Vivemos pela primavera e quando a primavera morre,
Pela próxima primavera
Para não viver só
Eu te amo e te espero para ter a ilusão
De não viver só, de não viver só

Para não viverem sós, garotas amam garotas
E vemos rapazes casarem-se com rapazes
Para não viverem sós
Outros fazem filhos, filhos que são sós
Como todos os filhos
Para não viverem sós
Fazem catedrais onde todos que são sós
Se apegam a uma estrela
Para não viver só
Eu te amo e te espero para ter a ilusão
De não viver só

Para não vivermos sós, fazemos amigos
E os reunimos quando vêm as noites de tédio
Vivem pelo dinheiro, seus sonhos, seus palácios,
Mas nunca fizeram um caixão com dois lugares
Para não viver só
Eu vivo com você, sou só com você, você é só comigo
Para não vivermos sós
Vivemos como aqueles que querem se iludir
De não viverem sós.





Acompanhem minhas performances em homenagem à cantora Dalida: Dalida... À ma manière

Querem saber mais sobre a vida e a carreira da artista?
Acompanhem as outras postagens da série:
 Tributo a Dalida.

Leiam também a história da tragédia do Festival de San Remo em 1967, que envolveu diretamente a diva: Homenagem ao cantor e compositor Luigi Tenco.




Algumas fontes recomendadas a quem deseja saber mais sobre Dalida:
Site oficial da cantora: https://dalida.com/
Blog brasileiro dedicado a Dalida (por Alexandre Korrea): http://dalidabrasil.blogspot.com/




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